1.Nome e idade?
Tito Amaral, 34 anos.
2.Estado civil
Vivo em união de facto do qual tenho uma filha de 5 anos chamada Teresa.
3.Qual o seu clube em Portugal? E Estrangeiro?
Sou do Benfica, da Associação Desportiva de Oeiras e de Portugal.
4.Qual o seu treinador preferido (português e estrangeiro)? E jogador?
Não tenho treinadores preferidos, mas claramente prefiro treinadores com formação e educação científica, do que treinadores que foram jogadores, contudo considero uma equipa técnica mais forte se tiver ambos. Não tenho de momento jogador preferido.
5.Tem formação de treinador? Qual?
Sou licenciado em Educação Física e Desporto Escolar, com especialização em Futebol, detendo o nível 1 de treinador.
6.Fale-nos um pouco de si. Como foi o seu percurso desportivo até aos dias de hoje?
O Futebol faz parte da minha vida desde que me lembro, chegava a jogar na rua mais de 5 horas por dia. A minha arte e engenho nunca foi nada de extraordinária na modalidade, mas sempre me identifiquei como um jogador de processos simples, persistente e com muita resistência.
Joguei no A.C. de Porto Salvo, na A.D. Oeiras e no G.I.M.D. Abóboda.
Como treinador, comecei na equipa da Faculdade, depois seguiu-se o CAC em Escolas uma época, Abóboda em Escolas e Juniores uma época cada, ADO em Escolas duas épocas e Infantis é a quarta época. Estive também nas escolas de formação do Benfica, dos Salesianos de Manique, do Tires e na nossa escolinha ADO.
7.“ Responsável técnico dos infantis da A.D.O., ou coordenador técnico”. Pode-nos falar sobre qual destes termos é que se aplica às suas funções. E já agora falar sobre essa mesma função.
Eu e outros treinadores dentro do clube desempenhamos vários papéis, para além de poder ser o responsável técnico dos infantis, porque naturalmente lidero a equipa de 4 treinadores deste escalão, devido ao meu passado no clube e neste escalão, mas não me sinto dono das decisões nem detenho toda a verdade, erro muitas vezes e preciso que os outros treinadores também me chamem a atenção.
Além disso também sou seccionista, roupeiro, motorista, etc., funções essas que um treinador de um clube actualmente tem de deter, pois o tempo do cooperativismo da rede social agregado à colectividade já não existe, quando joguei futebol, havia chuteiras novas para todos, equipamento para treino, toalha para o banho, transporte para casa, não existia uma mensalidade, sumos e bifanas nos jogos em casa e sandes nos jogos fora, que só era possível porque havia uma comunidade que contribuía para tal, neste momento o treinador alberga algumas dessas funções e os pais a parte restante, esta é a realidade actual e temos de saber viver com ela.
Continuando para não me dispersar, sou também coordenador técnico das escolinhas de Futebol, não da competição, é uma função diferente onde lido com a parte administrativa, com o trabalho de campo e na relação com os pais de futuros atletas de competição e daqueles que tendo a mesma paixão pelo jogo tem direito a pratica-la mesmo sendo noutro contexto.
8.O “ Mister” tem a treinar consigo no terreno mais 3 pessoas, o Bruno, Simão e o Pedro. Diga-nos lá, como é que é trabalhar com este trio de jovens treinadores? Sente a responsabilidade (sendo mais experiente) de os ajudar no seu crescimento enquanto treinadores?
No Futebol tal como em todas as outras funções existem sempre pessoas em fase de consolidação dos conhecimentos, pessoas em fase de maturação e desenvolvimento dos conhecimentos e outras em fase de aprendizagem dos conhecimentos, acima de tudo devemos saber nos colocar numa delas, sabendo lidar sempre com as outras fases, porque todas tem algo de positivo a dar.
Considero que por ter mais experiência poderei deter mais ferramentas que os outros treinadores dos Infantis, mas com eles aprendo a reciclar os meus conhecimentos e a continuar a evoluir para não estagnar, por isso eles servem-se de mim e eu deles, vivendo em sintonia.
É importante para A.D. Oeiras abrir portas e dar oportunidades a atletas para que possam evoluir, para cada vez serem mais competentes. Com os treinadores passa-se o mesmo, o clube tem formado bastantes ao longo dos anos com quem tive o privilégio de trabalhar e é necessário que assim continue a ser, se eu for importante na evolução destes treinadores, tanto melhor, pois estou a cumprir melhor a minha função.
Concluindo, é positivo treinar com estes três treinadores, o ambiente é saudável, sinto-me responsável por ter sido eu a abrir as portas a eles, mas terão de ser sempre eles que terão de aprender a voar, mesmo que considere que o Mister Bruno Santos não se enquadra bem no menos experiente pois já tem um passado rico nesta modalidade.
9.”Exigente, disciplinador, rigoroso nos processos aplicados ao treino, apaixonado pelo futebol, amigo dos jogadores, detesta a palavra perder”, revê-se nesta caracterização?
Sim, nesta caracterização e em muito mais coisas.
10.Quanto ao planeamento dos treinos. Este é feito em função dos jogos, ou já tem definido conteúdos tácticos, físicos e técnicos a serem aplicados durante a época? Esse mesmo planeamento é elaborado só por si ou é também pelos seus colegas?
O planeamento inicial é realizado por fases, definindo conteúdos gerais e globais para cada uma delas, depois existe um planeamento por microciclo feito todas as semanas, com conteúdos específicos, adaptado ao planeamento inicial, tentando colmatar as maiores dificuldades trabalhando também o próximo jogo.
O planeamento é feito pelos quatro treinadores, momento esse que serve de reflexão, como um “brainstorming”, onde é detectado os problemas e as adaptações que devemos fazer no nosso planeamento semanal, trocando ideias para poder enriquecer as experiências dos nossos atletas.
11.A sessão do treino deve estar centrada no jogo. Concorda?
Não, deve haver vários objectivos, um final, metas intermédias, o jogo e cada treino. O jogo é só um entre vários, porque nada serve ganhar o próximo se hipotecar com isso a evolução continua de todos.
12.Quanto se tem um grupo de jogadores com qualidade acima da média, a gestão da equipa tem que ser bem orientada no sentido de manter os índices de motivação elevados nos jogadores. Como é que isto se consegue? Dando a todos oportunidade de jogar? Fale-nos um pouco sobre isto.
Nestas idades considero que a motivação deles é o jogo em si, mas penso que quando um grupo ou um jogador individualmente está identificado com uma qualidade acima da média, isso acontece porque este(s) têm uma grande capacidade de se auto motivar, perante a adversidade, a monotonia dos treinos e a critica.
No que me diz respeito, considero que será sempre impossível agradar a todos, tenho de tomar opções todos os momentos e quando as tomo tenho que estar a pensar logo nos próximos momentos.
Como atrás referi, erro muitas vezes, mas tento estar sempre atento às dificuldades de cada um, trabalhar para que as superem, combatendo as angústias que qualquer miúdo se depara quando algo corre em sentido contrário à expectativa criada.
O escalão de infantis coincide com a ultima etapa em que as substituições são volantes, a realidade daqui para a frente é bastante diferente, isto acontece porque é importante nesta fase de aprendizagem do futebolista, seja possível que todos tenham experiencias dentro o jogo em si, a rotatividade nas convocatórias, traz por outro lado, não propriamente um factor motivacional, mas sim com a necessidade de todos terem de evoluir, porque nesta faixa etária as oscilações de qualidade e capacidade são constantes e é necessário dar a oportunidade a todos para que isso aconteça.
13.Defina 3 características que considere essenciais num jogador de futebol?
Amar o jogo em todas as suas formas, saber aprender de uma forma atenta e interessada e ser persistente para continuar a trabalhar nos bons e maus momentos.
14.O “O eu nunca pode ser superior á soma das partes” concorda com esta afirmação? Ou acha que nestas idades deve-se dar plena liberdade á criatividade dos jogadores esquecendo por vezes a equipa no seu todo?
Essa é uma pergunta à qual nem daqui por 100 anos se saberá a resposta mais correcta, a liberdade individual do atleta acaba a partir do momento que entra para a competição, porque a partir desse momento ele vai ter de colaborar para um objectivo superior ao dele, que é a equipa.
Ao invés das gerações anteriores que tinham muito futebol de rua, onde tecnicamente acabavam por ter muitos argumentos, mas não tinham treinos de uma forma orientada e tacticamente a sua maturação era já muitas vezes no escalão de seniores, conseguida pela observação e a experiência adquirida. O atleta actual tem pouco estímulo de rua, mas normalmente um miúdo com formação completa de Futebol 7, compreende o jogo e tacticamente é bastante evoluído, tendo noção dos princípios de jogo, por isso existe a tendência de muitos clubes tentarem que os atletas passem por muitos momentos com bola onde possam também explorar os seus argumentos técnicos adaptando a complexidade do exercício à capacidade do atleta, por isso surgiu a grande evolução em Portugal do Futebol 7, acredito que não devia parar por aqui.
Aproveito esta oportunidade, para vos falar um pouco do meu ponto de vista em relação ao Futebol 7, o porquê do ADO ser dos poucos clubes que ainda o tem com infantis de 2º ano, na minha opinião o ADO está certo e os restantes clubes errados.
Costumo dizer que não há pressa para crescer, existe uma tendência exagerada por parte da sociedade actual que os meninos sejam precoces em tudo o que fazem, com 3 anos já faz contas, com 4 já sabe ler, com 5 já tem aulas de Inglês, com 6 já usa a Internet, com 8 já tem telemóvel, etc.
No futebol existe também cada vez mais essa tendência, com 3 anos já anda numa escolinha de futebol, com 4 anos já é observado pelo Benfica e Sporting, aos 6 anos já está a fazer futebol 7, aos 7 anos já tem competição todos os fim-de-semanas, aos 12 já joga futebol 11, etc.
É importante para os atletas, ter uma competição adaptada á sua capacidade, ter um jogo que o desenvolva nas suas necessidades, conseguir adaptar o jogo de uma forma progressiva ao seu desenvolvimento cognitivo e motor. Por isso na minha perspectiva do que seria uma competição perfeita, o jogo teria uma evolução na sua complexidade mais adequada, com a idade iríamos não só aumentar o tempo de jogo, mas também o número de jogadores em campo de forma a não haver um fosso enorme entre Futebol 7 e Futebol 11.
O Futebol 7 permite ao atleta estar mais vezes em jogo, ter mais acções por jogo, mais acções sobre a bola, mais taxa de sucesso na obtenção de uma situação de finalização, tem dimensões mais adequadas à capacidade física do atleta e ver um jogo de Futebol 7 é 10 vezes mais bonito e mais rico em acções técnico tácticas que um jogo de Futebol 11 de Iniciados A quanto mais de Infantis, dando a eles muito mais liberdade técnica e de criatividade respondendo assim à pergunta.
Por isso volto a dizer que não existe pressa para crescer, mas acreditar que o atleta deve passar as etapas do seu crescimento de uma forma rica e completa para não prejudicar a sua evolução, concluo então que nem em iniciados se devia jogar Futebol 11, mas sim uma nova variante de 9 que devia começar no último ano de Infantis.
15.Considera importante o acompanhamento e apoio dos pais aos jogos e treinos? Porquê?
Considero importante que qualquer progenitor deve dar a melhor educação ao seu filho, o acompanhamento deles nas suas actividades é essencial, para eles se sentirem valorizados naquilo que fazem, tanto no futebol, como na escola, nas amizades, na música, nos jogos de consola, nos filmes, na alimentação, na higiene, etc.
A realidade do Desporto Português demonstra que sem a ajuda essencial dos pais era impossível a maioria das colectividades sequer existirem, por isso vocês são importantes tanto para o atleta como para a comunidade envolta num clube de que modalidade for.
De qualquer forma convém fazer uma chamada de atenção que para além do treinador, o PAI é normalmente aquele que tem muito poder de crítica em relação à prestação do atleta, sendo essa uma arma muito forte, devem ter atenção na forma como a usam, para não criar feridas profundas no atleta, que ao mesmo tempo é vosso filho. Por isso devem em jogo ter uma postura de incentivo e não criticas negativas, para todos sem individualizar, pois o vosso filho e a equipa vão lucrar com isso, após o jogo sou da opinião que podem e devem os dois descobrir aspectos que correram bem e outros que correram menos bem, pois faz parte da aprendizagem de um atleta reflectir sobre as suas acções umas horas após o jogo.
16.Tem algum ritual antes dos jogos? Qual?
Nenhum, como os jogos são de manhã, o único ritual que tenho é acordar.
17.Está contente com o grupo de jogadores que tem (A/B)?
Sempre, muitos destes meninos fui professor deles nas escolinhas da ADO e é com prazer que os vejo agora mais crescidos e com muitas competências adquiridas, além disso todos aqueles que foram entrando ao longo dos anos trouxeram sempre uma tendência de enriquecimento do grupo em si e isso é muito positivo. Na ADO temos por norma grupos com qualidade e talento, que torna o trabalho de todos mais fácil.
18.Que balanço faz destes meses de trabalho com este grupo (A/B)? Estava á espera destes resultados?
Considero que acima de tudo, eles se sentem mais fortes e mais capazes, o trabalho tem sido positivo e a aprendizagem crescente, mas eles tem de conseguir estar mais atentos e falar menos, isto acontece porque estamos na fase da pré adolescência e muitas coisas começam a mudar na sua atitude e forma de estar, eles estão a definir a sua personalidade e convém lhes dar exemplos positivos, pois o treinador para estas faixas etárias é um amigo, mas também é um pai que eles gostam que os apoie, e que os corrija quando eles têm atitudes incorrectas. Respondendo à segunda questão, depois de conhecer os adversários da primeira fase os resultados estão dentro daquilo que eu esperava.
19.Partindo do princípio que o Benfica e o Sporting vão ocupar os 2 primeiros lugares, acredita que a A.D.O. pode vir a ser o 3º classificado no campeonato?
Acredito que podemos ficar em qualquer lugar, os nossos objectivos desportivos neste momento são colocar uma equipa na 2ª fase A do 1º ao 14º e outra na 2ª fase B do 15º ao 28º, após atingido esse objectivo iremos traçar outros.
20.Quer deixar alguma mensagem aos seus atletas para o que resta do campeonato?
Espero que se divirtam em todos os momentos, que tenham ambição de evoluir, de continuar a trabalhar e que acima de tudo seja mais uma época para criar e fundamentar amizades para a vida.
PS – Gostaria só de terminar para desejar boa sorte para este blogue, por terem tido a iniciativa de me entrevistar, pedindo desculpa por ter dado respostas demasiado longas. Abraço a todos;
Tito Amaral
2 comentários:
Depreende-se pelas respostas dadas que estamos na presença de mais um grande apaixonado pelo futebol. Sem meias palavras demonstra ter uma forte convicção nas suas ideias relativamente ao sucesso do futebol de 7 na formação dos jogadores. Personalidade, ambição, estudioso, persistente, homem dos 7 ofícios parecem-me ser algumas características que podem definir Tito Amaral. Obrigado "MISTER". Também fico muito contente pela entrevista concedida, e por termos ficado a conhecer melhor a sua pessoa.
João Ferreira
Boa entrevista. Este blog é um meio excepcional para conhecermos com mais detalhe a comunidade que gira à volta do desporto praticado pelos nossos filhos. Parabéns, mais uma vez, ao João Ferreira, por esta iniciativa. Penso que seria também interessante falar-se com a direcção do clube, para conhecermos quais as direcções estratégicas da ADO para os próximos anos, as razões de algumas decisões tomadas nas camadas mais velhas, a visão sobre a progessão das escolas da ADO nessas camadas em detrimento de reforços trazidos de outros locais e paises, as razões por não se aproveitar de uma forma mais eficaz as infraestruturas do clube, enfim, colocar aquelas questões que algumas vezes são motivo de conversa entre os pais. É uma sugestão.
João Pereira
Enviar um comentário